sexta-feira, 25 de maio de 2012

Rádio Metrópole FM é uma ameaça à cidadania na Bahia
PALAVRAS-CHAVE: "Rádio Metrópole FM", "Mário Kertèsz", mídia + poder, "Aemização das FMs", Aemão, rádio + Salvador, rádio + Bahia, corrupção + "prefeitura de Salvador".
Em Salvador, Bahia, um lamentável fenômeno de comunicação pode significar uma ameaça futura à verdadeira cidadania e democracia não somente no Estado, mas também a todo o Brasil.
A Rádio Metrópole FM, além de representar uma concorrência desleal contra o rádio AM, tem como proprietário o empresário Mário Kertèsz, que foi por duas vezes prefeito de Salvador, entre 1979-1981 e 1986-1989. Foi afilhado político do ex-senador Antônio Carlos Magalhães, tendo sido um de seus secretários quando ACM era governador da Bahia. Na primeira gestão como prefeito, Kertèsz foi "prefeito biônico", ou seja, nomeado pela ditadura militar. Quanto às obras, esta gestão apenas seguia a lógica de ACM, com obras de interesse turístico e empresarial.
A segunda gestão de Kertèsz foi a mais problemática. Obras faraônicas foram feitas e deixadas incompletas, tendo sido iniciadas apenas para justificar a "necessidade" de investimentos para duas empreiteiras "fantasmas" criada pelo então prefeito, que depois se enriqueceu às custas deste desvio de dinheiro público (enviado pelo Fundo de Participação dos Municípios) para obras que nunca se encerraram na gestão do empresário.
Dois prefeitos sucessores foram seriamente prejudicados com a corrupção de Mário Kertèsz. Sobretudo a prefeita Lídice da Matta que, como opositora ao poder vigente (ACM), é até hoje tratada como "bode espiatório" dos problemas que Salvador viveu nos últimos 15 anos (embora ela tenha entrado na Prefeitura em 1993). Foi preciso esperar quase dez anos para tais obras de Kertèsz - que incluía um longo corredor viário ligando os bairros de Bonocô e Iguatemi - serem completas, já na gestão de Antônio Imbassahy. Qualquer informação sobre a corrupção do prefeito Mário Kertèsz pode ser obtida em reportagens do jornal A Tarde feitas no primeiro semestre de 1990, realizadas pelo free lancer Fernando Conceição, hoje professor da UFBA com pós-graduação pela USP.
MÍDIA COMO FRUTO DE "LAVAGEM" DE DINHEIRO
Com o enriquecimento gigantesco, Mário Kertèsz havia comprado três rádios, em 1989: duas FMs, Itaparica (91,3 mhz) e Rádio Cidade (101.3 mhz), e uma AM, Rádio Clube (1290 khz). Foi, de 1990 a 1994 o último interventor do Jornal da Bahia, fato que não foi investigado pelo jornalista Teixeira Gomes no livro "Memórias das Trevas".
Nessa época Kertèsz fazia da Itaparica FM um "Aemão" popularesco, de linha sensacionalista, enquanto a Rádio Cidade se subordinava à rede existente então (sediada no Rio de Janeiro e desfeita em 1993) e a Rádio Clube numa programação apática, a princípio de caráter popular e depois arrendada à igreja Assembléia de Deus.
Quando as denúncias vieram, Kertèsz (cujo desempenho como prefeito é comparável aos desempenhos de Fernando Collor, como presidente, e Jáder Barbalho, como governador amazonense e senador, mas também pode ser comparado com o do paulista Paulo Maluf) teve sua decadência política iniciada em 1990, quando foi obrigado a abandonar a pretendida candidatura ao governo da Bahia, deixando a missão para seu mentor político Magalhães, com quem romperia politicamente quando ACM xingou seu ex-afilhado de "judeu fedorento".
Kertèsz, último político usado por ACM para destruir o veículo oposicionista "Jornal da Bahia", não foi creditado dessa forma no livro "Memórias das Trevas", de José Carlos Teixeira Gomes ("Joca"), que se limitou a citar o ex-prefeito como um simples desafeto de Magalhães. No entanto foi Kertèsz quem deu o "golpe mortal" ao jornal que havia surgido em 1958 tendo na equipe, entre outros, o próprio Joca, o escritor João Ubaldo Ribeiro e o então futuro cineasta Glauber Rocha (que então tiraria a famosa produção "Barravento" das mãos de Luiz Paulino dos Santos, o diretor inicial), este dedicado à reportagem policial.
Mário Kertèsz, entre 1990 e 1994, fez do então prestigiado Jornal da Bahia virar um veículo sensacionalista de baixíssimo escalão, no qual incluía reportagens policiais apelativas e grosseiras, fofocas da tevê e propagandas do seu então dono, uma tentativa de mantê-lo na vida política e forjar um "carisma popular". O "Aemão" da Itaparica FM era uma espécie de complemento dessa fase lamentável do Jornal da Bahia, falido em 94.
Kertèsz, além de decretar falência ao jornal, vende a Itaparica para um grupo empresarial do interior baiano, o Grupo Lomes, que depois vende a mesma rádio para o grupo de axé-music Chiclete Com Banana. 
Em 199,7 Kertèsz se lança como "dublê de radiojornalista", com um programa noticioso veiculado na TV Aratu e depois na TV Bandeirantes (retransmissora baiana da TV Bandeirantes, que Kertèsz desejava comprar ações), que tinha uma versão radiofônica na Rádio Cidade. Quando prefeito, Mário já havia brincado de "radialista" através de um programa de rádio arrendado pela própria Prefeitura de Salvador.
Em 1998 fez um acordo com o político Félix Mendonça dono da FM Litoral Norte (102,5 mhz) para absorver uma equipe de radialistas esportivos de um programa medíocre chamado "Futebol Mix", antes veiculado na Litoral Norte FM, rádio que teve o nome de fantasia de Jovem Pan 2 e tinha acabado de voltar a retransmitir a Antena Um, retransmissão iniciada em junho de 1994 e desfeita seis meses depois para adotar a rede Jovem Pan.
Esse "Futebol Mix" passaria a ser transmitido pela Rádio Cidade em 1999, rádio já convertida para o lamentável formato de "Aemão em FM", mas o programa saiu do ar no final daquele ano.
Em março de 2000, a Rádio Cidade muda seu nome para Rádio Metrópole FM e a fortuna de Kertèsz serve para dar um golpe na Rádio Sociedade, contratando metade do quadro de locutores. A ascensão da rádio na mídia praticamente seduz a imprensa organizada, enquanto o rádio AM baiano fica desprotegido, sem poder recorrer à Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) nem ao Sindicato dos Radialistas para controlar a concorrência desleal da Metrópole FM.
Não bastasse isso, Kertèsz compra o passe de um grupo de atores de teatro baianos para uma rádionovela, e ainda arrebata o médium José Medrado para completar o projeto do ex-prefeito de usar figuras carismáticas da sociedade baiana para seduzir a opinião pública. Além disso, até alguns radialistas da Rádio Cultura AM também foram contratados, além de uma repórter da TV Bandeirantes, que ganhou um programa na rádio. Na sua programação abrigam desde médicos até integrantes do movimento negro de Salvador, setores heterogêneos da sociedade baiana que acabam trabalhando para a futura volta de seu patrão para a política estadual.
Em 2001 a impotente Rádio Clube vira Metrópole AM, mas Kertèsz mantém o "Aemão" na FM, seguindo o modismo caça-níqueis da dupla transmissão AM/FM adotado pelo rádio paulista, e que promove as emissoras CBN e Rádio Bandeirantes como representantes do poder capitalista no rádio brasileiro.
A ascensão de Kertèsz na mídia só é contida por uma reportagem da revista Veja sobre o escândalo ACM/Jáder Barbalho, em fevereiro de 2001, que noticiava uma gravação nos bastidores do programa de TV Jogo Aberto, em que o apresentador e ex-prefeito negociava uma série de ataques a políticos do PMDB a serem feitas no programa. A denúncia custou a sobrevida do programa televisivo e evitou a possibilidade do ex-prefeito virar "Rei do Ibope". No entanto, o programa volta ao ar em meados de 2003, relançado por uma propaganda altamente tendenciosa que, entre outras coisas, promove a imagem enganosa de Kertèsz como "maior cronista da cidade".
Hoje a Metrópole FM nem de longe é líder de audiência. Em 2000 chegou perto, a índices de audiência comparáveis ao segundo lugar das AMs e sexto lugar das FMs. O dono da rádio não conseguiu eleger sua repórter Ariane Carla nas eleições para vereador em 2000 e deputado estadual em 2002, o que indica que a força da rádio não é tanta quanto muitos tentam supor. Mas, infelizmente, as FMs "AnêMicas" de Salvador contam com um truque em que audiências ostensivas de porteiros de prédio, donos de bar, taxistas, barraqueiros e vendedores de lojas de atacado e varejo, mesmo totalizando no máximo 20% da audiência total de rádio na capital baiana, colocam essas FMs como supostas líderes de audiência em Salvador. Podem não ficar no topo do Ibope, mas já roubam as verbas publicitárias das AMs.
METRÓPOLE FM AO LONGO DOS ANOS: PERSONALISMO E POPULISMO CHIQUE
Com os seis anos de existência da emissora baiana, completados em 2006, verifica-se que se trata de um oportunismo que consegue enganar as pessoas que, incapazes de ter uma opinião própria, precisam de algum meio de comunicação "digestível" para, se não determinar o que eles devem pensar, pelo menos disciplinar a sua consciência crítica.
Numa época em que a mídia, tomada pela idéia obsessiva do espetáculo, promove gratuitamente a degradação cultural e transforma a grande imprensa, mesmo aquela considerada de "alto nível", em uma arena do sensacionalismo, a Metrópole FM encontrou terreno fértil para seu oportunismo. Aparentemente desligado da vida política, Mário Kertèsz encontrou o seu "melhor cargo político": o de dublê de radiojornalista.
Mesmo não assumindo um cargo político, Kertèsz parece soar como um misto de Paulo Maluf com Jânio Quadros e Fernando Collor. Do primeiro, tem o background político e o "apreço" pela idéia de "honestidade e transparência". Do segundo, uma certa ambigüidade ideológica que, apesar da formação explicitamente conservadora, tenta assimilar tendências opostas à sua formação: Kertèsz, sendo conservador, direitista e machista, dessa forma tenta seduzir as vanguardas culturais, a esquerda baiana e as feministas, sem no entanto se vincular realmente a esses lados (o que seria impossível e prejudicial aos interesses do radialista e ex-prefeito). Do terceiro, tem o dom aventureiro e oportunista de forjar carisma e se passar por "moderno".
Num país onde o analfabetismo é preocupante e mesmo entre a classe média de nível universitário há um sério índice de desinformação e alienação, a opinião pública pouco se preocupa com casos como Mário Kertèsz. No país da impunidade, onde corruptos e criminosos ricos dificilmente vão para a cadeia, agravado com a degradação social resultante de duas décadas de ditadura militar, torna-se fácil um sujeito que, como prefeito de uma das principais capitais turísticas do país, simplesmente nada fez pela cidade e desviou dinheiro público para seu patrimônio pessoal, reabilitar sua imagem pública a ponto de seduzir até mesmo alguns jornalistas que deveriam se comprometer com a repulsa à corrupção.
Apenas a ação de alguns iluminados, que em jornais alternativos procuram relembrar ou desvendar o caso Mário Kertèsz / Metrópole FM, conseguem diminuir o estrelato do radialista. É muito pouco, vide a horda de ingênuos que chega ao ponto de ver no ex-prefeito um outsider midiático, convencendo a mídia dominante, que se consente em silêncio. A mídia consegue até mesmo frear a opinião pública, tal qual um condutor de diligências aos seus cavalos, e os corruptos ou criminosos que a mídia interessa ativar a revolta popular nem sempre são os piores: bate-se demais em palhaços da corrupção política como Marcos Valério e Nicolau dos Santos Neto e no entanto adota-se uma repulsa "respeitosa" e "gentil" ao corrupto Mário Kertèsz e ao criminoso Pimenta Neves, ambos homens inseridos na grande mídia, gente rica e poderosa cujos erros são vistos como "coisa normal", mesmo seriamente preocupantes e altamente ofensivos à ética nacional.
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