Rádio
Metrópole FM é uma ameaça à cidadania na Bahia
PALAVRAS-CHAVE: "Rádio
Metrópole FM", "Mário Kertèsz", mídia + poder,
"Aemização das FMs", Aemão, rádio + Salvador, rádio +
Bahia, corrupção + "prefeitura de Salvador".
Em Salvador, Bahia, um lamentável fenômeno
de comunicação pode significar uma ameaça futura à verdadeira cidadania e
democracia não somente no Estado, mas também a todo o Brasil.
A Rádio Metrópole FM, além de representar
uma concorrência desleal contra o rádio AM, tem como proprietário o
empresário Mário Kertèsz, que foi por duas vezes prefeito de Salvador, entre
1979-1981 e 1986-1989. Foi afilhado político do ex-senador Antônio Carlos
Magalhães, tendo sido um de seus secretários quando ACM era governador da
Bahia. Na primeira gestão como prefeito, Kertèsz foi "prefeito
biônico", ou seja, nomeado pela ditadura militar. Quanto às obras, esta
gestão apenas seguia a lógica de ACM, com obras de interesse turístico e
empresarial.
A segunda gestão de
Kertèsz foi a mais
problemática. Obras faraônicas foram feitas e deixadas incompletas, tendo
sido iniciadas apenas para justificar a "necessidade" de
investimentos para duas empreiteiras "fantasmas" criada pelo então
prefeito, que depois se enriqueceu às custas deste desvio de dinheiro público
(enviado pelo Fundo de Participação dos Municípios) para obras que nunca se
encerraram na gestão do empresário.
Dois prefeitos sucessores foram seriamente
prejudicados com a corrupção de Mário Kertèsz. Sobretudo a prefeita Lídice da
Matta que, como opositora ao poder vigente (ACM), é até hoje tratada como
"bode espiatório" dos problemas que Salvador viveu nos últimos 15
anos (embora ela tenha entrado na Prefeitura em 1993). Foi preciso esperar
quase dez anos para tais obras de Kertèsz - que incluía um longo corredor
viário ligando os bairros de Bonocô e Iguatemi - serem completas, já na
gestão de Antônio Imbassahy. Qualquer informação sobre a corrupção do
prefeito Mário Kertèsz pode ser obtida em reportagens do jornal A Tarde feitas
no primeiro semestre de 1990, realizadas pelo free lancer Fernando
Conceição, hoje professor da UFBA com pós-graduação pela USP.
MÍDIA COMO
FRUTO DE "LAVAGEM" DE DINHEIRO
Com o enriquecimento gigantesco, Mário
Kertèsz havia comprado três rádios, em 1989: duas FMs, Itaparica (91,3 mhz) e
Rádio Cidade (101.3 mhz), e uma AM, Rádio Clube (1290 khz). Foi, de 1990 a
1994 o último interventor do Jornal da Bahia, fato que não foi investigado
pelo jornalista Teixeira Gomes no livro "Memórias das Trevas".
Nessa época
Kertèsz fazia da Itaparica FM
um "Aemão" popularesco, de linha sensacionalista, enquanto a Rádio
Cidade se subordinava à rede existente então (sediada no Rio de Janeiro e
desfeita em 1993) e a Rádio Clube numa programação apática, a princípio de
caráter popular e depois arrendada à igreja Assembléia de Deus.
Quando as denúncias vieram,
Kertèsz (cujo
desempenho como prefeito é comparável aos desempenhos de Fernando Collor,
como presidente, e Jáder Barbalho, como governador amazonense e senador, mas
também pode ser comparado com o do paulista Paulo Maluf) teve
sua decadência política iniciada em 1990, quando foi obrigado a abandonar a
pretendida candidatura ao governo da Bahia, deixando a missão para seu mentor
político Magalhães, com quem romperia politicamente quando ACM xingou seu
ex-afilhado de "judeu fedorento".
Kertèsz, último político
usado por ACM
para destruir o veículo oposicionista "Jornal da Bahia", não foi
creditado dessa forma no livro "Memórias das Trevas", de José
Carlos Teixeira Gomes ("Joca"), que se limitou a citar o
ex-prefeito como um simples desafeto de Magalhães. No entanto foi
Kertèsz quem deu o "golpe mortal" ao jornal que havia surgido em 1958
tendo
na equipe, entre outros, o próprio Joca, o escritor João Ubaldo
Ribeiro e o
então futuro cineasta Glauber Rocha (que então tiraria a famosa
produção "Barravento"
das mãos de Luiz Paulino dos Santos, o diretor inicial), este dedicado
à
reportagem policial.
Mário Kertèsz, entre 1990 e 1994, fez do
então prestigiado Jornal da Bahia virar um veículo sensacionalista de
baixíssimo escalão, no qual incluía reportagens policiais apelativas e
grosseiras, fofocas da tevê e propagandas do seu então dono, uma tentativa de
mantê-lo na vida política e forjar um "carisma popular". O
"Aemão" da Itaparica FM era uma espécie de complemento dessa fase
lamentável do Jornal da Bahia, falido em 94.
Kertèsz, além de decretar falência ao
jornal, vende a Itaparica para um grupo empresarial do interior baiano, o
Grupo Lomes, que depois vende a mesma rádio para o grupo de axé-music
Chiclete Com Banana.
Em 199,7 Kertèsz
se lança como "dublê de radiojornalista",
com um programa noticioso veiculado na TV Aratu e depois na TV Bandeirantes
(retransmissora baiana da TV Bandeirantes, que Kertèsz desejava comprar
ações), que tinha uma versão radiofônica na Rádio Cidade. Quando
prefeito, Mário já havia brincado de "radialista" através de um
programa de rádio arrendado pela própria Prefeitura de Salvador.
Em 1998 fez um
acordo com o político Félix Mendonça dono da FM Litoral Norte (102,5 mhz) para absorver uma equipe de radialistas
esportivos de um programa medíocre chamado "Futebol Mix", antes
veiculado na Litoral Norte FM, rádio que teve o nome de
fantasia de Jovem Pan 2 e tinha acabado de voltar a retransmitir a Antena Um,
retransmissão iniciada em junho de 1994 e desfeita seis meses depois para
adotar a rede Jovem Pan.
Esse "Futebol Mix" passaria a
ser transmitido pela Rádio Cidade em 1999, rádio já convertida para o
lamentável formato de "Aemão em FM", mas o programa saiu do ar no
final daquele ano.
Em março de 2000, a Rádio Cidade muda seu
nome para Rádio Metrópole FM e a fortuna de Kertèsz serve para dar um golpe
na Rádio Sociedade, contratando metade do quadro de locutores. A ascensão da
rádio na mídia praticamente seduz a imprensa organizada, enquanto o rádio AM
baiano fica desprotegido, sem poder recorrer à Anatel (Agência Nacional de
Telecomunicações) nem ao Sindicato dos Radialistas para controlar a
concorrência desleal da Metrópole FM.
Não bastasse isso,
Kertèsz compra o passe
de um grupo de atores de teatro baianos para uma rádionovela, e ainda
arrebata o médium José Medrado para completar o projeto do ex-prefeito de
usar figuras carismáticas da sociedade baiana para seduzir a opinião pública.
Além disso, até alguns radialistas da Rádio Cultura AM também foram
contratados, além de uma repórter da TV Bandeirantes, que ganhou um programa
na rádio. Na sua programação abrigam desde médicos até integrantes do
movimento negro de Salvador, setores heterogêneos da sociedade baiana que
acabam trabalhando para a futura volta de seu patrão para a política
estadual.
Em 2001 a impotente Rádio Clube vira
Metrópole AM, mas Kertèsz mantém o "Aemão" na FM, seguindo o
modismo caça-níqueis da dupla transmissão AM/FM adotado pelo rádio
paulista, e que promove as emissoras CBN e Rádio Bandeirantes como
representantes do poder capitalista no rádio brasileiro.
A ascensão de
Kertèsz na mídia só é
contida por uma reportagem da revista Veja sobre o escândalo ACM/Jáder
Barbalho, em fevereiro de 2001, que noticiava uma gravação nos bastidores do
programa de TV Jogo Aberto, em que o apresentador e ex-prefeito negociava uma
série de ataques a políticos do PMDB a serem feitas no programa. A denúncia
custou a sobrevida do programa televisivo e evitou a possibilidade do
ex-prefeito virar "Rei do Ibope". No entanto, o programa volta ao ar
em meados de 2003, relançado por uma propaganda altamente tendenciosa que,
entre outras coisas, promove a imagem enganosa de Kertèsz como "maior
cronista da cidade".
Hoje a Metrópole FM nem de longe é líder
de audiência. Em 2000 chegou perto, a índices de audiência comparáveis ao
segundo lugar das AMs e sexto lugar das FMs. O dono da rádio não conseguiu
eleger sua repórter Ariane Carla nas eleições para vereador em 2000 e
deputado estadual em 2002, o que indica que a força da rádio não é tanta
quanto muitos tentam supor. Mas, infelizmente, as FMs
"AnêMicas" de Salvador contam com um truque em que audiências ostensivas
de porteiros de prédio, donos de bar, taxistas, barraqueiros e vendedores de
lojas de atacado e varejo, mesmo totalizando no máximo 20% da audiência total
de rádio na capital baiana, colocam essas FMs como supostas líderes de
audiência em Salvador. Podem não ficar no topo do Ibope, mas já roubam as
verbas publicitárias das AMs.
METRÓPOLE FM AO LONGO DOS ANOS:
PERSONALISMO E POPULISMO CHIQUE
Com os seis anos de
existência da emissora baiana, completados em 2006, verifica-se que
se trata de um oportunismo que consegue enganar as pessoas que,
incapazes de ter uma opinião própria, precisam de algum meio de
comunicação "digestível" para, se não determinar o que
eles devem pensar, pelo menos disciplinar a sua consciência crítica.
Numa época em que a
mídia, tomada pela idéia obsessiva do espetáculo, promove
gratuitamente a degradação cultural e transforma a grande imprensa,
mesmo aquela considerada de "alto nível", em uma arena do
sensacionalismo, a Metrópole FM encontrou terreno fértil para seu
oportunismo. Aparentemente desligado da vida política, Mário
Kertèsz encontrou o seu "melhor cargo político": o de
dublê de radiojornalista.
Mesmo não assumindo um
cargo político, Kertèsz parece soar como um misto de Paulo Maluf com
Jânio Quadros e Fernando Collor. Do primeiro, tem o background
político e o "apreço" pela idéia de "honestidade e
transparência". Do segundo, uma certa ambigüidade ideológica
que, apesar da formação explicitamente conservadora, tenta assimilar
tendências opostas à sua formação: Kertèsz, sendo conservador,
direitista e machista, dessa forma tenta seduzir as vanguardas
culturais, a esquerda baiana e as feministas, sem no entanto se
vincular realmente a esses lados (o que seria impossível e
prejudicial aos interesses do radialista e ex-prefeito). Do terceiro,
tem o dom aventureiro e oportunista de forjar carisma e se passar por
"moderno".
Num país onde o
analfabetismo é preocupante e mesmo entre a classe média de nível
universitário há um sério índice de desinformação e alienação,
a opinião pública pouco se preocupa com casos como Mário Kertèsz.
No país da impunidade, onde corruptos e criminosos ricos dificilmente
vão para a cadeia, agravado com a degradação social resultante de
duas décadas de ditadura militar, torna-se fácil um sujeito que,
como prefeito de uma das principais capitais turísticas do país,
simplesmente nada fez pela cidade e desviou dinheiro público para seu
patrimônio pessoal, reabilitar sua imagem pública a ponto de seduzir
até mesmo alguns jornalistas que deveriam se comprometer com a
repulsa à corrupção.
Apenas a ação de alguns
iluminados, que em jornais alternativos procuram relembrar ou
desvendar o caso Mário Kertèsz / Metrópole FM, conseguem diminuir o
estrelato do radialista. É muito pouco, vide a horda de ingênuos que
chega ao ponto de ver no ex-prefeito um outsider midiático,
convencendo a mídia dominante, que se consente em silêncio. A mídia
consegue até mesmo frear a opinião pública, tal qual um condutor de
diligências aos seus cavalos, e os corruptos ou criminosos que a
mídia interessa ativar a revolta popular nem sempre são os piores:
bate-se demais em palhaços da corrupção política como Marcos
Valério e Nicolau dos Santos Neto e no entanto adota-se uma repulsa
"respeitosa" e "gentil" ao corrupto Mário
Kertèsz e ao criminoso Pimenta Neves, ambos homens inseridos na
grande mídia, gente rica e poderosa cujos erros são vistos como
"coisa normal", mesmo seriamente preocupantes e altamente
ofensivos à ética nacional.
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